Nadadores por princípio
O berço da vida
O que mais o brasileiro sonha para os fins de semana, feriados e férias é que faça muito sol para que ele possa ficar crocodilando à beira mar. É esse, sem dúvida nenhuma, o esporte predileto do brasileiro e, provavelmente, de todos os homens do planeta. Quem nunca lá esteve, sonha em ir. Quem lá esteve, sonha em voltar.
Mas, por que o mar exerce tanto fascínio e atração sobre os homens? Por que essa necessidade quase incontrolável de estar no mar? A resposta para essas perguntas pode estar há bilhões de anos: a vida veio do mar e, portanto, inconscientemente, o homem responde ao chamamento do seu instinto original.
A origem da vida
Durante muitos anos, cientistas se empenharam em pesquisas tentando desenvolver uma teoria que demonstrasse que a vida não pode surgir espontaneamente e que as explicações religiosas para a criação carecem de realismo.
O que hoje a ciência sabe – e é capaz de reproduzir – é que a vida surgiu de reações físico-químicas de amônia, gás carbônico e água decorrentes de descargas elétricas ocorridas em condições favoráveis de temperatura e umidade.
A partir desse momento – o sopro da criação –, a vida evoluiu por cerca de dois bilhões de anos. Da condição de simples unicelulares até atingir níveis elevados de complexidade, os primitivos seres vivos tinham o mar como seu habitat original.
Dessa forma, podemos afirmar que todas as formas de vida – vegetais ou animais, grandes ou microscópicas, extintas ou não – descendem originalmente de vidas marinhas. Numa lenta e sobressaltada sucessão de eventos biológicos, nosso planeta foi testemunha do aparecimento e desaparecimento de variadas formas de vida. Primeiro os unicelulares, que evoluíram para organismos invertebrados mais complexos, depois os peixes, os anfíbios, os répteis, as aves, os mamíferos, os primatas e, finalmente, os homens.
Oceano
O homem é um animal aquático e, portanto, um nadador original? Para responder a essa pergunta, é necessário nos reportarmos às características estruturais do organismo humano.
Calcula-se que o corpo de um homem adulto médio (70 Kg) seja constituído de aproximadamente 60 trilhões de células e 40 litros de água, sendo que mais de 50% deste total está no interior da célula, representando mais de 75% do peso de cada uma delas e 60% da massa corporal do indivíduo. Todo esse universo de células, que constituem o organismo humano, surge a partir de uma única célula criada pela fusão, em meio líquido, de um espermatozoide do homem com um óvulo da mulher.
Uma vez ocorrida a fecundação e iniciado o processo de multiplicação, as células passam a se organizar em tecidos envolvidos por uma substância líquida. Se analisarmos os fluídos do corpo de animais marinhos e terrestres, dentre eles o do homem, perceberemos que são semelhantes e se parecem ao sal do próprio mar original. Somos, portanto, um mar ambulante, descendentes das formas originais de vida que existiam nos mares pré-históricos.
A difícil, perigosa e aventureira travessia dos espermatozoides
No clímax de uma relação sexual, quando o homem ejacula, o fluído seminal – composto de 90% de água e menos de 2% de esperma – é lançado para fora do pênis por poderosas contrações musculares. Em cada cm³ de esperma há cerca de 60 milhões de espermatozoides, sendo que em cada ejaculação podem ser lançados até 350 milhões deles.
Num primeiro momento, os espermatozoides são relativamente inativos, mas em poucos segundos “aprendem a nadar” e começam a se deslocar com vigorosos movimentos da cauda de um lado para outro, a uma inacreditável velocidade de 3 mm por minuto. Aqueles que não conseguem nadar tão rapidamente e chegar ao colo do útero perdem a mobilidade na vagina cerca de uma hora após a ejaculação ou são destruídos pelos glóbulos brancos no interior do próprio órgão.
Até chegarem ao final da travessia, os espermatozoides enfrentam uma difícil competição nadando uma distância milhares de vezes maior do que seu próprio tamanho. Ejaculados na vagina, 30 segundos depois chegam ao útero. Atravessando o canal cervical, entram nas tubas uterinas e fazem um sprint em direção ao óvulo. Para que toda essa distância seja percorrida, o espermatozoide precisa se manter nadando energicamente por muitas horas no organismo feminino.
De todos os milhões de espermatozoides que são ejaculados, somente 1.000 a 100.000 entrarão na tuba uterina onde se encontra o óvulo para fecundação e, desses, não mais que 100 o alcançarão. Mas, ainda agora, a competição não terminou. Pressionando a membrana do óvulo, as cápsulas acrossômicas (camada de proteção da cabeça do espermatozoide) se rompem liberando uma enzima que irá dissolver a camada protetora do óvulo. Dos espermatozoides que chegaram a esse ponto, somente um penetrará no óvulo dando origem a uma nova vida, encerrando a competição. Assim sendo, você que está lendo este texto pode se considerar um espermatozoide vencedor.
A volta da grande travessia
Doze horas após a fecundação, o ovo (zigoto) começa a se multiplicar e a formar o embrião que, movimentando-se pela tuba uterina, chega ao útero cerca de três dias depois. Uma vez fixado na parede do útero, o novo ser começa a se desenvolver, permanecendo imerso em meio líquido por mais nove meses até seu nascimento.
Resgatando a unidade
Por que muitos homens que são gerados no meio líquido e vivem em um planeta composto por 2/3 de água, chegam à idade adulta com verdadeiro pavor de água? Por que o homem, que por tanto tempo viveu na água, não respira com naturalidade dentro dela? Por que tamanho medo que paralisa o diafragma? Por que pessoas mais velhas têm dificuldade para aprender a nadar?
Por que muitos homens “caem de cabeça” nas piscinas e se comportam como guerreiros? Seriedade, compenetração, braçadas vigorosas, maratonas aquáticas, horas ininterruptas de treinamentos, competitividade desatinada, estresse, lesões.
Estamos fadados e predestinados a sermos hidrofóbicos ou máquinas de nadar? Serão essas as formas que temos para nos relacionar com a água? Não. Com certeza, não. Não é a resposta mais adequada para essas perguntas.
Nosso instinto original, expresso pelo gosto de crocodilar à beira das piscinas e nas praias, nos indicam outros caminhos. Caminhos que nos conduzem a relações muito mais complexas, estimulantes e prazerosas com a água, nas quais nadar é apenas uma faceta delas. Caminhos que nos levam a observar as crianças nadando e como se divertem com a água, e, talvez por isso, aprendam mais rápido.
O prazer irracional. O prazer de tratar a água com carinho e ser correspondido. É esse o elo perdido da nossa relação com a água. Só através dele poderemos reconstruir nossas primitivas relações harmoniosas.
Na água não precisamos nadar rápido e nem percorrer grandes distâncias. Na água não precisamos aprender, só precisamos recordar. Precisamos superar o trauma do parto (rompimento com o meio líquido), nos desfazer dos preconceitos e dos estressantes hábitos da vida contemporânea. Precisamos religar a vida de hoje com a vida uterina e biológica, e relaxar. Entrar na água conscientes de que reencontramos nosso ambiente original.
Na água só precisamos resgatar nossa unidade original: como seres biológicos viemos da água, como indivíduos fomos concebidos e gerados na água, como matéria somos 60% água.
Na água resgatamos o sopro da criação original.